23 de novembro de 2011

perdura

"...e respira na fria noite. o poeta não morrerá, talvez por uma fração de perjúrio ele se culpe o bastante para parar de escrever completamente, mas a força que o nutre dos vestígios da palavra é sempre mais forte. eu citaria um verso que suspira, que na lânguida face se mimetiza à expressão remota de tristeza - reconhecível e familiar - mas o coração não pára, e se aquece com a estrófe pungente que se atira para a vida(...) fato é que estou escrevendo a um destinatário a que não me pertence, que jamais ousaria a ler sequer minha dúbia palavra, que se morre quando não há o prestígio doce do braço que afaga toda a forma da dor.

ora, por via de todo bom grado que fortalece meu homem, não exasperado fica aquele que outrora se traíra, mas que confiara em si mesmo e em seu bem amado. o poeta não morrerá - pois está à espera. o poeta ressurge do manto da batalha, trazendo consigo o sangue daquele que não pôde ser ouvido, ou mesmo cuidado com a manha pedagógica. faz-se então a luta contra a indiferença mordaz que flecha a alma, o abutre que com olhos devora a carcaça de um dia perdido, e derrota a compaixão para com o fraco e o oprimido. faço na contrapartida, então, a comiseração.

diria eu que a esperança é algo que bate à porta longinquamente, que frustra o samaritano no breu da falsa expectativa, codinome incerteza. o poeta não morrerá, mas fará alusão ao que não se sabe ao certo - a verbal volúpia do homem que não ama, que não compreende, do qual subitamente o poeta restringe-se a passo largo para outrora não jazer jamais(...)

ora, o poeta não dá dedo para o universo, pois sabe que o amor é um garrancho no fogo cruzado. relutante e com medo morde fugaz, paira sob a infiel verdade que se balança, e abrupto debruça-se para aceitar este viés, que perdura."