19 de fevereiro de 2012



alphaville, de godard.

de franceses

quero explicar isto para ti com urgência, passar-te cada sermão que eles me deram sem o toque de sutileza atada na expressão. estou passando de um tempo remoto para uma vida limpa e branca. quero esquecer deste problema que um dia fez-se dor remanescente nas contrapartidas de meu coração. prefiro não me lembrar dos dias em que fui freira piedosa para com minha própria alma, ancorada no mar imenso por qual muito quis velejar adentro. prefiro não morrer pelo santo açoito que flecha meu peito muito distante de mim, e recorrer à via da derrota p'ra mais tarde fazer-se um "não" irremediável quando a vitória dorme aqui, lenta e amorfa. está tudo aqui neste muito coração, não há leite que se derrame para apaziguar as dores do meu bem, da minha preciosidade que vocifera o cristo e os amores, e da luminosidade que nasceu do fruto de minha própria impaciência. também quero dizer-te com cautela, de forma longínqua e com auréola que paira sob a cabeça, que o amor é um bicho que hiberna precariamente, realça o seio de toda forma de força, e sucumbe num vazio preenchido.

também quero te dizer outra coisa: não queira espairecer-se de forma desonesta. leve contigo não somente a cumplicidade da correspondência por que tanto aguarda intimamente, mas também o que atrai esta humilhação de ser alguém no universo, de provar à relutância por paixão ardente que o espírito é algo infinito, e na gargalhada, na falta de juízo, a resposta para isto é algo que trai o falso destino. já não me olha mais com ar condescendente - por mais irrisório que eu seja, ainda traio a tentação da fé por algo que me faça ser maior aqui dentro. não sei por onde começar a catar com fria determinação a pungente força que me faz ser alguém, que me faz amar aos meus diferentes e aos meus semelhantes de forma tão aprimorada quanto o intenso medo que inerte se fecha, e se esvai em uma estranha mansidão - um silêncio que tenho medo de perder, que tenho receio mórbido por me fazer obsoleto, não mais aberto a mim mesmo.

querido, mergulha comigo!, sem bóia e espírito adjacente nestas muitas superfícies, transversais aos trovões, rasas e risíveis, p'ra descobrirmos a tão distante fonte de nossa própria identidade, e o tão próximo desejo do que queremos ser.